Ronaldo Lessa, o leão que não se curva
Por Alexandre Câmara
Não se trata aqui de recontar a biografia de Ronaldo Lessa — isso a história de Alagoas já fez. Trata-se de registrar quatro fatos políticos concretos dos últimos meses. O primeiro é uma posição que ele toma: ser contra a privatização da água. O segundo é o que fizeram com ele: o abandono pelo próprio grupo político. O terceiro é o que ele já fez quando governou. O quarto é o que ele defende agora. Coisas diferentes. Cada uma no seu quadrado.
Ronaldo Lessa é contra a privatização da água. Ele não está reagindo a críticas — está se posicionando a favor dos menos favorecidos. Existem críticas imensas ao abastecimento de água depois da privatização, e Lessa olha para quem está sendo prejudicado. Enquanto muitos flertam com soluções privatizantes ou silenciam sobre o tema, ele diz claramente: água não é mercadoria, é bem essencial, e o lucro não pode estar acima do acesso universal. Isso não é novidade na sua trajetória, mas é incômodo num momento em que o discurso da eficiência privada virou mantra.
O abandono veio depois. Diferente do que tentam fazer crer, Lessa não decidiu “virar a casaca” por oportunismo. O que aconteceu foi mais simples e mais revelador: o grupo político do qual ele fazia parte o isolou porque ele incomoda, porque é independente, porque não está preso a acordos pré-existentes. Não houve convite para negociações. Seu nome não foi lembrado. Ele foi jogado ao mar. A imagem é exata. Só que o leão soube nadar. Sobreviveu ao abandono. Se a expectativa era vê-lo se afogar no esquecimento ou se recolher para uma aposentadoria silenciosa, erraram. Lessa não é político de vitrine. É político de trincheira.
Os políticos têm medo do que ele representa. Medo de que ele mude as regras do jogo — como já fez quando assumiu o governo de Alagoas. Naquela época, depois de quase dois séculos de domínio de uma elite conservadora no poder, ele chegou e ajustou a relação com a Assembleia Legislativa e com o Judiciário. E foi assim que ele rompeu um ciclo histórico.
Hoje, Lessa mantém o mesmo tom. Em declaração recente, ele afirmou que o estado vive uma concentração de poder e defendeu o fim da hegemonia do MDB — que tem catorze deputados e controle absoluto da Assembleia — e também do domínio dos Calheiros do outro lado. Disse que é hora de fazer independência, que o poder precisa ser mais aberto ao novo. E ele fala disso com autoridade, porque com ele foi assim: ele foi o novo quando ninguém acreditava que alguém pudesse ser.
Em uma fala recente, replicada pela mídia, adversários políticos chegaram a dizer que Lessa “jogou a própria história no lixo”. Uma frase esdrúxula. Pena que esbarra num fato incontornável: a história de Ronaldo Lessa é um divisor de águas em Alagoas. Ele implantou programas de saúde, programas sociais, gestão democrática na educação, concurso público, moralização das contas. Numa época em que nada disso funcionava, o poder público passou a se preocupar com os menos favorecidos e com o desenvolvimento de Alagoas. Hoje, num cenário em que a política se resume cada vez mais a interesses financeiros, o nome de Ronaldo Lessa não afunda — ele sobe. Por isso, o lugar de Lessa jamais será uma lata de dejetos. O lugar dele é num pódio de honra.





