Alagoas registra média de duas crianças estupradas por dia, segundo Anuário de Segurança Pública
POR MANUELLY CAMPOS
A violência sexual contra crianças em Alagoas segue um padrão alarmante e persistente. De acordo com o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2024, o estado registrou 1.002 casos de estupro e estupro de vulnerável no ano passado. Desse total, 75,6% das vítimas tinham até 13 anos de idade, o que corresponde a cerca de 758 crianças violentadas – uma média de duas por dia.
O cenário em Alagoas reflete a média nacional, onde 76,8% dos casos envolvem vítimas na mesma faixa etária. O perfil predominante das vítimas é o feminino, representando 87,7% dos registros no país. As estatísticas escancaram uma realidade preocupante: a maior parte dos crimes ocorre dentro da casa da vítima, praticados por pessoas do próprio convívio familiar, como pais, padrastos, tios ou companheiros da mãe.
Além da violência em si, o ambiente doméstico como local predominante desses crimes revela o grau de vulnerabilidade e silêncio que envolve os casos. Nos fins de semana, especialmente aos sábados e domingos, é quando se concentram as maiores ocorrências, segundo os dados do anuário. A ausência da rotina escolar, que poderia funcionar como rede de apoio e observação, amplia o risco a que muitas crianças estão expostas.
CASO SILENCIOSO DE VIOLAÇÃO
Para especialistas da área da assistência social e proteção à infância, os dados apenas confirmam aquilo que já é percebido na prática – a violência sexual contra crianças é, muitas vezes, invisibilizada. Em grande parte dos casos, não há denúncia, seja por medo, vergonha ou por pressões familiares. A subnotificação permanece sendo um dos maiores entraves no combate ao problema.
Em Alagoas, o funcionamento irregular de conselhos tutelares e a carência de profissionais capacitados em algumas cidades agravam ainda mais o contexto. Há municípios onde não há estrutura suficiente para acolhimento das vítimas ou encaminhamento adequado às redes de saúde e psicossocial.
A escola, embora não tenha a função de investigar denúncias, é apontada como espaço fundamental para a identificação de comportamentos alterados, traumas ou sinais físicos. No entanto, muitos professores ainda não têm formação adequada para reconhecer essas situações ou agir com segurança diante delas. A capacitação de profissionais da educação, saúde e assistência social é citada no relatório como uma das estratégias essenciais para reduzir os índices de abuso e garantir o acolhimento das vítimas.
Entre as medidas recomendadas também estão a ampliação dos canais de denúncia, como o Disque 100, o fortalecimento dos centros de referência e o investimento em políticas públicas voltadas à proteção da infância. Além disso, é necessário garantir um atendimento humanizado, que considere as marcas emocionais deixadas por esse tipo de violência.
CRIME RECENTE
Em abril deste ano, uma menina de 12 anos foi raptada e estuprada por um conhecido da família, na zona rural de Maceió. O crime ocorreu no fim de semana de 26 e 27 de abril, e a vítima foi encontrada somente no dia 28, em um canavial, com sinais de agressão e violência.
O acusado, de 51 anos, cunhado do padrasto da adolescente, foi preso pela Polícia Militar e autuado por estupro de vulnerável com lesão corporal grave, conforme informou a Polícia Civil de Alagoas.
MOBILIZAÇÃO E ENFRENTAMENTO
Situações como essa revelam o quanto a violência sexual ainda se esconde em vínculos de confiança, tornando-se um crime silencioso que se alimenta da proximidade, da impunidade e da falta de vigilância social. Enfrentar essa realidade exige medidas concretas, articulação entre instituições e políticas públicas eficazes que quebrem o silêncio, reforcem os mecanismos de proteção e garantam punição rigorosa aos agressores.
Enquanto a impunidade persistir e os serviços públicos forem negligenciados, casos como esse continuarão a se repetir, dia após dia.
